6.2.08

Workshop: A Nova Lei da Educação Especial e as suas Implicações


A Nova Lei da Educação Especial e as suas Implicações no Processo de Avaliação das Necessidades Educativas Especiais de Carácter Permanente,por Referência à CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde da OMS)

1 de Março de 2008 (Sábado)

Objectivos: Dar a conhecer os fundamentos e os conteúdos da nova Lei da Educação Especial; Analisar as implicações do Dec. Lei nº 03/2008 de 7 de Janeiro na organização das escolas e no processo de avaliação para definição do público-alvo; Dar a conhecer a CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde) como instrumento facilitador de inclusão e organizador do processo de avaliação das Crianças e Jovens com Necessidades Educativas Especiais de Carácter Permanente; Apresentar formas de operacionalizar a CIF no âmbito da Educação Especial..

Programa
09h30m – apresentação
10h00m – Início da formação
Novo enquadramento legal da Educação Especial – Apresentação dos fundamentos e dos conteúdos do Dec. Lei nº 3 /2008
Análise das implicações da nova lei da Educação Especial no processo de avaliação das NEE e na organização das respostas.
11h30m – Intervalo para café
11h45m – A Classificação Internacional de Funcionalidade - Um Novo Paradigma de Avaliação das NEE: Modelo Subjacente e Aspectos Estruturais
13h00m – Almoço
14h00m - Processo de avaliação das NEE por referência à CIF: Fases do processo, intervenientes e instrumentos de apoio.
15h30m – Intervalo para café
15h45m – 18h00m - A aplicabilidade da CIF (Apresentação de estudos de caso).
Formadora: Maria da Conceição Vitorino Baião
Data e Horário: 1 de Março de 2008 (sábado), das 09.30 às 18.00h

Destinatários
- Profissionais com intervenção na área da Educação ou da Saúde da Criança,
- Estudantes de cursos das áreas da Educação ou da Saúde.
- Pais e Encarregados de Educação

Nº de vagas: 35 (admissão por ordem de chegada das Fichas de Inscrição)

Local: Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa – Parque das Nações (a confirmar)

Preço de Inscrição: Até 25 Fevereiro 2008 - 75 € ; Após 25 Fevereiro 2008 - 100 €
Possibilidade de efectuar o pagamento com 2 cheques pré-datados (29 Fev e 30 Março).

Organização e Secretariado

Oficina Didáctica
Rua D. João V, nº 6 B (ao Rato)
1250-090 Lisboa
Tel.: 21 387 24 58 - Email: info@oficinadidactica.pt

www.oficinadidactica.pt

30.1.08

Arte poética



Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.

Jorge Luis Borges

22.1.08

O que se pensa e o que se pensa sobre o que se pensa


Esta é uma altura de mudança. Como tantas outras documentadas na história de cada um, na história das sociedades, na história do mundo.
Estamos a mudar e pronto. Alguns dirão "mas a mudar estamos sempre...".
Pois concerteza que sim.
Há mudanças e mudanças, no entanto. Umas sentem-se mais que outras, cum raio! E esta, devo dizer, faz-se sentir com firmeza.

Daí que, numa tentativa frustre mas não improdutiva de adaptação, ou acomodação, como lhe queiramos chamar, tenho pensado sobre como pensar o que ando para aqui a pensar.
Ocorreu-me que, se há uma mudança significativa a considerar na realidade que me rodeia, então não poderei fazer uso apenas do meu pensamento tal como o usei até agora. Se novos esquemas, soluções, concepções e olhares sobre o mundo são desejados então terei que fazer alguma ginástica mental, mudar de ritmo, olhar de esguelha, usar novos espelhos, lupas ou estetoscópios.

Foi no meio de todo este embrulho que me deparei com a crónica O fantasma do Natal analisado, escrito por Ricardo Araújo Pereira.
Deste texto retiro alguns parágrafos para ilustrar, com humor, assim espero que o sintam, o meu ponto de partida que, apresentando-se como um fim - pensar sobre o como pensamos algo -, pretende ser apenas um começo discussão e possibilidades.
Que valham os dois personagens - o moralista e o moralista que pretende moralizar os moralistas para que deixem de moralizar - pelas questões sobre as quais nos debruçamos diariamente, numa abordagem a dois tempos, visão de entendimento binário.

"Basicamente, há dois tipos de crónica natalícia: a moralista e a moralista que tenta moralizar os moralistas para que deixem de moralizar. Na primeira categoria estão todas as crónicas alguma vez escritas sobre o Natal; na segunda, encontra-se esta, cuja solidão se explica, provavelmente, pela sua profunda complexidade. (...)
"Repare: se a crónica pretende moralizar os moralistas para que deixem de moralizar, está a falhar à partida o seu objectivo, que é fazer com que se deixe moralizar, uma vez qu ela própria moraliza. (...)
"A crónica natalícia moralista costuma apresentar duas ou três críticas recorrentes. Uma diz respeito ao consumismo acéfalo das pessoas. (...) O consumismo acéfalo dos outros é repugnante, sobretudo na medida em que me impede de praticar o meu. (...)
"Outra crítica: a vontade artificial de sermos bondosos, que é tão hipócrita porque dura apenas uma semana e desaparece no resto do ano. A verdade é que a preocupação dos cronistas com a hipocrisia é igualmente hipócrita, porque também dura apenas uma semana e desaparece no resto do ano. (...)
"Pois eu digo: que se lixem os moralistas."

Ocorre-me agora que um dos possíveis aliados à construção de novos esquemas e possibilidades de pensamento, criação de novas hipóteses teóricas, poderá ser o nonsense.
Um pouco à semelhança da associação livre, em contexto psicanalítico, via para uma descoberta interna mais e mais abrangente, enriquecida e complexa, o recurso ao nonsense serviria como via de acesso a um pensamento ampliado e enriquecido.

Exploremos as ferramentas vizinhas de nós, com gozo. Pensar tornar-se-á colorido e ritmado, por oposição a preto e branco - isto, numa lógica binária, a dois tempos.

15.1.08

conferências pela associação psicanalítica de madrid

Curso :
“ FUNDAMENTOS DEL PSICOANÁLISIS Y DESARROLLOS TEÓRICOS ACTUALES” (de Janeiro a Junho, 2008)

CONFERêNCIAS
Janeiro (2008)
Quarta, 16 (20,30 h)
“Los orígenes del Psicoanálisis. Una perspectiva histórica”
Milagros Cid, M.T. (APM)
Miércoles día 23 (20,30 h)
“Los sueños”
Sabin Aduriz, M.T. (APM)
Miércoles día 30 (20,30 h)
“Psicopatología de la vida cotidiana”
Jaime Szpilka, M.T. (APM)
Fevereiro (2008)
Miércoles día 6 (20,30 h))
“Teoría del Inconsciente”
Carlos Sopena, M.T. (APM)
Miércoles día 13 (20,30 h))
“Teoría pulsional”
Carlos Padrón , M.T. (APM)
Miércoles día 20 (20,30 h))
“El objeto en Psicoanálisis”
Francisco Granados , M.T. (APM)
Miércoles día 27 (20,30 h)
“Mecanismos de defensa”
Raúl Fernández Vilanova, M.T. (APM)
Março (2008)
Miércoles día 5 ((20,30 h)
“Teorías de la angustia”
Rafael Cruz Roche, M.T. (APM)
Miércoles día 12 (20,30 h))
“La sexualidad infantil”
Francisco Muñoz, M.T. (APM)
Miércoles día 26 (20,30 h)
“El narcisismo”
Enriqueta Moreno, M. T. (APM))
ABRIL (2008)
Miércoles día 2 (20,30 h)
“La identificación”
Teresa Olmos, M.T. (APM)
Miércoles día 9 (20,30 h)
“El síntoma en Psicoanálisis”
Norma Tortosa, M.T. (APM)
Miércoles día 16 (20,30 h)
“El trauma en Psicoanálisis”
Milagros Oregui, M.T. (APM)
Miércoles día 23 (20,30 h)
“Realidad material-realidad psíquica”
María Hernández, M.T. (APM)
Miércoles día 30 (20,30 h)
“El proceso psicoanalítico: transferencia-contratransferencia”
Patricia Grieve, M.T. (APM)
MAiO (2008)
Miércoles día 7 (20,30 h)
“La escucha psicoanalítica”
Manuela Utrilla, M.T. (APM)
Miércoles día 14 (20,30 h)
“Cambio psíquico: Interpretación-construcción”
Guillermo Onrubia, M.T. (APM)
Miércoles día 21 (20,30 h)
“Resistencia al cambio: actino out actino in, impasse”
Ángeles de Miguel, M.T. (APM)
Miércoles día 28 (20,30 h)
“Psicoanálisis y Psicoterapia”
Silvia Pérez Galdós, M.T. (APM)
JUNIO (2008)
Miércoles día 4 (20,30 h)
“La formación del psicoanalista”
Mª Luisa Muñoz, M.T. (APM)

No mínimo, estranho...

Um investigador da Universidade Fernando Pessoa no Porto, Freitas-Magalhães, concluiu que os bebés entre os quatro e oito meses são incapazes de distinguir "emoções básicas" como a alegria e a cólera. Esta conclusão é no mínimo estranha e no máximo perigosa se ficar sem resposta.

Como se pode ignorar assim mais de um século de psicologia e de psicanálise? Como se pode ignorar também as mais recentes teses das neurociências que vão no mesmo sentido do que a psicanálise vem dizendo desde o início do século sobre os afectos, a relação precoce e todo o desenvolvimento humano?

O investigador chega a esta estranha conclusão após exibir, no artificialismo da situação experimental, fotografias supostamente contendo "emoções básicas" a 40 meninos e meninas.

Estranho é também que este senhor vá receber um prémio por esta investigação inédita!

Ai tanta cegueira experimental!

Notícia do Público de 14 de Janeiro

14.1.08

A capacidade de estar só

"Saiba o homem partir só para a aventura da vida; e então o ponto de encontro com o outro será um pacto de solidariedade e não um laço de escravidão. Mas para isso terá de aprender, de treinar, a capacidade de estar só. Apenas a partir daí será um homem livre, produtivo e criador."

(António Coimbra de Matos)

11.1.08

II Congresso Luso-Brasileiro Revisitado

18 e 19 de Janeiro de 2008
Aula Magna da Faculdade de Medicina de Lisboa
Organização - Instituto de Psicanálise

"Psicanálise e Processos de Mudança - Individuo, Sociedade e Cultura"

Programa: 18 de Janeiro

14h00 - Abertura do Secretariado

14h30 - Sessão de Abertura

14h45 - Conferências:

A FUNÇÃO da PSICANÁLISE na RESSIGNIFICAÇÃO de VÍNCULOS PRÉ-EXISTENTES e na CONSTRUÇÃO de NOVAS LIGAÇÕES
Conferencistas: António Coimbra de Matos
Comentário: Celeste Malpique
Presidente: Luísa Branco Vicente

16h00 - Pausa

16h30 - Mesa Redonda:

O SIGNIFICADO da CURA na PSICANÁLISE HOJE TRANSFORMAÇÕES e CONSTRUÇÕES no PROCESSO ANALÍTICO
Conferencistas: Ana Marques Lito, Catarina Neves, Vasco Santos, António Mendes Pedro Moderadora: Isabel Consciência

18h30 - Fim dos Trabalhos
_________________________________

19 de Janeiro

09h00 - Mesa Redonda:

CONTRIBUIÇÕES TEÓRICO-TÉCNICAS e OBSTÁCULOS na CLÍNICA com PACIENTES de DIFÍCIL ACESSO
Conferencistas: Eduardo Sá, João Salvado Ribeiro, Mª Conceição Oliveira, Teresa Fragoso Moderadora: Isabel Prata

11h00 - Pausa

11h35 - Conferências:

CONFRONTAÇÕES e RESISTÊNCIAS à PSICANÁLISE na CONTEMPORANEIDADE Conferencistas: Luísa Branco Vicente
Comentário: Ana Almeida

CONTEXTO SÓCIO-CULTURAL e CONSTRUÇÃO SUBJECTIVA
Conferencistas: Maria Antónia Carreiras
Comentário: Mª Rosário Belo
Presidente: Manuela Pereira

13h00 - Almoço

14h45 - Mesa Redonda:

AVANÇOS e DESAFIOS no TRATAMENTO PSICANALÍTICO de CRIANÇAS e ADULTOS Conferencistas: Isabel Margarida Pereira, Rosina Pereira, Isabel Costa, Carlos Vieira
Moderadora: Isabel Almeida

16h30 - Pausa

14h45 - Conferências:

MARCAS IDENTIFICATÓRIAS da PSICANÁLISE LUSO-BRASILEIRA - CONFLUÊNCIAS e DIVERGÊNCIAS TEÓRICO-CLÍNICAS
Conferencistas: Carlos Amaral Dias
Comentário: Carlos Farate
Presidente: José de Abreu Afonso

18h30 - Encerramento

Profissionais: 50€ (cinquenta euros)
Estudantes: 40€ (quarenta euros)
Sócios da SPP: 40€ (quarenta euros)

Para se inscrever preencher a ficha disponível no site oficial da Sociedade Portuguesa de Psicanálise http://www.sppsicanalise.pt/ e enviar para a morada:

Instituto de Psicanálise
Av. da República, 97 - 5º
1050-190 Lisboa

10.1.08

Shhhhhhhhh


Escolhemos quando conhecemos.
Conhecemos quando olhamos, lemos, ouvimos.
Aprendemos quando fazemos as perguntas certas. As quais só podemos elaborar quando algo se tornou compreensível/acessível para nós (como dizia João dos Santos "Se não sabe, porque é que pergunta?").
Erramos e aprendemos com o outro, numa partilha ampla de diferentes olhares.
Contestamos o que se nos apresenta claro e com o qual não concordamos. Ou contestamos a falta de clareza.
Aplaudimos o que nos encaixa; regozijamo-nos com descobertas.
Temos esperança no encontro de caminhos. Outros que os façam ou fazemo-los com eles, lado-a-lado, à frente ou no carro vassoura.
Num excesso de informação, invade-nos a saturação; já não vemos quando olhamos, ouvimos ruído, e as letras atropelam-se nas palavras.
Shhhhhhhhhhhh
Paramos e começamos de novo, com parcimónia.

Tenho ouvido a Radio Europa ( http://www.radioeuropa.fm/index_17.html ) com o prazer da descoberta, por vezes da estupefacção ou do arrelio.
Gostei de a descobrir pois traz-me, por vezes, o que não encontro noutras rádios e jornais.

Fica a sugestão: http://www.radioeuropa.fm/index_17.html

31.12.07

Ano novo, " vida velha"

Já lá vai o tempo em que eu achava piada à expressão " ano novo, vida nova".
Está bem, eu sei - é importante e bom fazer balanços, parar para pensar, estabelecer objectivos e acreditar ingenuamente que são para cumprir à risca, pedir desejos ao sabor de passas e imaginar que nesta noite tudo se promete.
Mas daí a desejar prescindir da minha "vida velha" de imperfeição e de lapso, de encontros improváveis e outros que nunca chegaram a acontecer, "vida velha" de palavras tantas vezes não ditas, de nostalgias, esperanças, conquistas, moínhos de vento, momentos de pragmatismo e outros dignos de "cavaleiro da triste figura" ( que bonita esta expressão de Cervantes!), " vida velha" onde me reconheço, e aos meus amigos, às coisas que bem ou mal se foram construíndo e que decidi habitar, utilizando esta coisa boa que é a liberdade, daí a desejar prescindir dela, dizia, vai um caminho que não desejo percorrer.
A "vida velha" é "velhinha" na ternura e "nova" no desejo, é aquela que tenho e que agradeço, "porque me hay dado tanto...".
Por isso, os meus votos para 2008 são assim- vira o disco, e toca quase o mesmo ( porque mesmo na repetição se cria o diferente...):

Continuar a dizer em vez de calar. Exercer sempre novas liberdades. Ensaiar os voos possíveis, questionar a realidade e, acima de tudo , questionar-me. Ser uma zona livre, como diz Prévert.
Poder dizer ao comandante que ele também se engana.


" Zona Livre

Pus o bivaque na gaiola
e saí de pássaro na cabeça.
Então?
já não se faz a continência?
perguntou o comandante.
Não
já não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe, pensei que se fazia
disse o comandante
Está desculpado, qualquer um pode enganar-se
respondeu o pássaro."


( Jaques Prèvert)

Um novo ano. Outra e a mesma história.

Porque é momento de recomeços, saúdo-vos.

Porque é tempo de promessas, compromissos, desejos cheios e fortunas, proponho a leitura de uma pequena parte de um livro escrito pelo Dr. Óscar F. Gonçalves.
O autor inicia o seu livro resgatando D. Quixote, heróico cavaleiro, esquecido por tantos mas, por outros mais, figura de referência, para nos falar de narrativas, de histórias de vida, de contos, de autores e construções.

Apresento o texto por uma razão vasta. Pelas palavras que usamos e gastamos, pelo silêncio caro que por vezes procuramos ou perdemos, pela autoria desejada e conquistada da nossa própria história de vida (perdida a história dos nossos, num resgate que se impõe), por D. Quixote e pelo sorriso que me desperta, por todos os motivos que me lembrei e não escrevi e por todos aqueles encontrados pelo leitor, os quais gostaria de conhecer.

Com os votos de um ano novo cheio de descobertas, curiosidades, trabalhos e conquistas.
Boa Leitura.


"Ao apresentar ao leitor a imortalizada figura de D. Quixote, Miguel Cervantes recorda-nos que tudo começou no esforço de preenchimento dessas longas tardes em que a personagem se debatia sobre o que fazer com o desmedido espaço e tempo que se lhe afiguravam.
"À semelhança de qualquer narrativa, a vida não passa afinal de um modo complexo de gestão de espaço e tempo. Diante da folha em branco, o autor desenha as personagens que, por sua vez, vão garatujando os seus próprios caminhos na diversidade de cenários e no cruzamento de temporalidades. Tal como D. Quixote, o autor toma a indefinição criativa do espaço e a flexibilidade dos movimentos do tempo como condição necessária para o despertar da sua autoria.
"No entanto, nas primeiras linhas da sua construção, D. Quixote está ainda aquém do processo de autoria, num limbo criativo, na gestação questionante do seu ócio. D. Quixote ocupa o tempo vivendo vicariamente as experiências de outras personagens, deleitando-se numa leitura compulsiva das obras de cavalaria. Com estas leituras, lembra-nos Cervantes, vai-se progressivamente afastando do mundo, chegando ao ponto de se esquecer da administração da sua própria fazenda, bem como de todos os seus bens terrenos. Era, na opinião do autor, uma alienação que o insanescia e que de tanto ler "lhe foi secando o cérebro". No entanto, é no contexto deste insanescimento que decorre o motivo de uma nova procura. Procura testemunhada pelo momento em que D. Quixote decide passar da condição de leitor à condição de autor da sua vida. O espaço e o tempo deixam de ser objecto de uma contemplação ociosa para adquirirem a condição de experiência activa. D. Quixote decide fazer de si próprio "caballero andante, e irse por todo el mundo com sus armas e caballo a buscar las aventuras"."

Viver narrativamente. A psicoterapia como adjectivação da experiência. Óscar F. Gonçalves